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Pesquisa brasileira aponta os impactos globais da mineração para mamíferos selvagens
UNEMAT FAZ PESQUISA
Pesquisa brasileira aponta os impactos globais da mineração para mamíferos selvagens
17/06/2021 12:12:42
por Assessoria de Comunicação
Foto por: Arquivo Pessoal
Pesquisadora Angele em momentos de pesquisa de campo
Pesquisadora Angele em momentos de pesquisa de campo

Pesquisadores brasileiros de quatro instituições públicas, Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Universidade Federal do Maranhão (UFM), além de uma instituição não governamental, Instituto Ecótono (IEco), publicaram, na revista europeia Journal for Nature Conservation, um estudo em escala global com o intuito de identificar lacunas do conhecimento científico sobre os impactos da mineração sobre as populações de mamíferos de médio e grande porte, como onças-pintadas, lobos, macacos, tatus, entre outros.

O estudo identificou, em uma janela de 30 anos de amostragem de trabalhos científicos publicados (1990 a 2020), apenas 39 artigos científicos publicados que corresponderam ao interesse da pesquisa, esses representando 20 países do globo: Armênia, Austrália, Brasil, Canadá, Chile, República do Congo, Dinamarca, Espanha, França, Gana, Índia, Libéria, Madagascar, Mongólia, Peru, Senegal, Serra Leoa, Estados Unidos e África do Sul. Os resultados do estudo indicam que a perda de habitat, mais uma vez, é a grande ameaça aos grandes e médios mamíferos em zonas de mineração. Agregado a todos os outros impactos que o desmatamento ocasiona, a perda de habitat recebeu destaque em 40% dos artigos revisados.

A bióloga Angele Tatiane Martins-Oliveira, doutoranda em Ecologia e Conservação pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e mestre em Ciências Ambientais também pela Unemat, que desenvolveu a pesquisa como parte de seu trabalho de doutorado, ressalta: “Conhecer a dimensão dos impactos que nosso modelo econômico representa na vida selvagem é bastante complexo e desafiador, tendo em vista o chamado desenvolvimento econômico. Entretanto, podemos afirmar que a mineração e os empreendimentos responsáveis por esse desenvolvimento são também responsáveis por impulsionar a perda da biodiversidade”.

A equipe demonstra que as áreas de distribuição geográfica (km²) de algumas espécies ameaçadas de extinção têm grande densidade de jazidas de minérios (USGS), “isto indica a necessidade de estudos de amplo espectro, não apenas sobre os efeitos diretos da mineração em populações de mamíferos ameaçados de extinção, tais como a perda de habitat e a contaminação ambiental, como também os efeitos indiretos da instalação das plantas de mineração, por exemplo, o aumento da caça e de atropelamentos de animais”, diz um dos idealizadores da pesquisa, Gustavo Canale, doutor e professor da UFMT, conselheiro científico do Instituto Ecótono.  

Visão geral da distribuição por país de artigos de revisão por pares relacionados ao impacto da mineração em mamíferos de médio e grande porte com hábitos terrestres e arbóreos. O número de espécies ameaçadas (IUCN) são mostrados por símbolos de cada capital do país. Os seguintes países não apresentaram nenhuma espécie ameaçada impactada por atividades de mineração de acordo com nossa revisão sistemática: Armênia, Austrália, Dinamarca, Espanha e Estados Unidos da América.

 

O estudo ressalta a necessidade de licenciamento ambiental e acompanhamento de todos os empreendimentos que causem ameaças diretas e pressões à fauna como um todo. O biólogo, e um dos coordenadores da pesquisa, o professor doutor Fabiano R. de Melo, diz: "A importância de estudos como este é a orientação de políticas públicas voltadas para o licenciamento, demonstrando a importância do rigor da lei para que os impactos sejam monitorados e, sempre que possível, minimizados".

Outro importante resultado encontrado pela equipe foi que, das 153 espécies de mamíferos identificadas por pressões e ameaças advindas das atividades de mineração, 84% (128 spp) não são consideradas como ameaçadas pela mineração, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional de Conservação para Natureza (IUCN), isso também indica a necessidade de novas pesquisas e projetos de consolidação de resultados como os alcançados pelo grupo.

O grupo de pesquisadores ressalta que o descaso é ainda maior quando nos referimos aos impactos socioambientais, como os ocorridos recentemente no Brasil, nas barragens de Mariana e Brumadinho. “Certamente, as pressões a esse tipo de crime ambiental serão sentidas entre os mamíferos por muito tempo, devido à contaminação das áreas com resíduos tóxicos” diz Angele, primeira autora do trabalho e sócio-fundadora do Instituto Ecótono. Ainda na contramão do bem-estar socioambiental estão as multas sobre esses desastres, que de fato poderiam retornar para a sociedade local via incentivos e recuperação à vida local e do entorno, no entanto, essas multas não substituem os impactos gerados e, de forma geral, não impactam a economia da empresa mineradora.

O estudo fortalece as reivindicações no meio científico sobre a necessidade de investimentos em pesquisas direcionadas para a ecologia e conservação dos ecossistemas impactados pela exploração mineral, visto que ainda são desproporcionais a quantidade de recursos financeiros das mineradoras em relação aos impactos socioambientais gerados por essa atividade.

O grupo ressalta também que ainda são incipientes os estudos sobre o impacto da mineração nos mamíferos, e destacam: “A atividade mineradora gera degradação de longo prazo, altera a biodiversidade local e também impacta o entorno das áreas exploradas. No entanto, pouco disso está sendo estudado em conjunto com a conservação de mamíferos de médio e grande porte”. Assim, os pesquisadores enfatizam a importância do incentivo a estudos relacionados à análise de material genético e à verificação do acúmulo de metal em mamíferos de médio e grande porte, tanto durante quanto após a exploração dos recursos minerais.

Para acessar o artigo completo publicado na Journal for Nature Conservation clique aqui.

 

 

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