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Unemat coordena grande pesquisa em erosão da biodiversidade na Bacia do Alto Paraguai


A Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) está coordenando uma grande pesquisa de campo sobre vários aspectos da biodiversidade na bacia do Rio Paraguai. São cerca de 700 quilômetros, no trecho que compreende a nascente do rio em Alto Paraguai no Mato Grosso e o Parque Nacional do Pantanal, na divisa entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Trata-se do projeto “Erosão da Biodiversidade na Bacia do Alto Paraguai: impactos do uso da terra na estrutura da vegetação e comunidade de vertebrados terrestres e aquáticos”, ou Projeto Erosão, como é chamado por seus membros.



Durante a execução do projeto, no período de junho a novembro de 2017 e 2018, época escolhida em função de melhor acesso as áreas de amostragem, serão realizadas coletas, em 40 áreas agrupadas em 10 módulos distribuídos no trecho de estudo em intervalos aproximados de 70 km. Serão estudados a estrutura da vegetação, mamíferos de pequeno, médio e grande porte, aves, répteis, anfíbios e peixes, sob o aspecto de comunidade e toxicológico, uma vez que o rio Paraguai convive com atividades do agronegócio na cabeceira e em suas margens. Ainda será feito um estudo comparativo por meio de imagens de satélite das alterações sofridas na região nos últimos 30 anos.



O estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat) e coordenado pelo professor da Unemat, doutor em Ecologia, Manoel dos Santos Filho, tem como parceiros a Universidade Federal do Estado de Mato Grosso (UFMT) e a University of East Anglia, do Reino Unido. Já as análises laboratoriais dos materiais coletados contam com a parceria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Até o momento já foram colhidas amostras nas proximidades da foz do rio Sepotuba (Cáceres-MT), Estação Ecológica do Taiamã (Cáceres-MT) e nas proximidades do Rio Bugres.



Em Barra do Bugres onde está sendo realizada a terceira expedição, 16 pesquisadores, entre alunos e professores coletarão amostras para o estudo até o dia 10 de setembro, finalizando o procedimento iniciado dia 30 de agosto. Tecidos como músculos e fígado dos animais além de amostras de penas de aves e placas córneas de jacaré estão sendo extraídos e encaminhados à análise laboratorial para identificação da presença de pesticidas. Já pele e coração, de pequenos mamíferos, são encaminhados para diagnóstico de reservatórios do agente causador da doença de chagas e da leishmaniose. Amostras de água e solo também são enviadas para o laboratório para detecção da presença ou não de princípios ativos de pesticidas.



A equipe de biólogos vai a campo ao longo dos dias coletar, capturar ou registrar os animais e plantas que estão estudando na bacia do Rio Paraguai. No alojamento, em Barra do Bugres, a movimentação inicia às 4 da manhã. Divididos em três barcos motorizados, as equipes partem pelo rio Bugres em direção ao rio Paraguai onde são distribuídos nas áreas demarcadas do módulo.



Os pesquisadores utilizam pasta de amendoim e banana em armadilhas para coletar pequenos mamíferos. Já as armadilhas que, além de mamíferos, coletam anfíbios e répteis não há necessidade de iscas, apenas a colocação estratégica. As aves são coletadas nas redes de neblina e a imagem dos médios e grandes mamíferos é registrada pelas armadilhas fotográficas. Já os jacarés são capturados a noite com a ajuda de laços de Lutz. E para a coleta dos peixes são necessários acessórios de pesca tradicional, tarrafas, tela e redes de arrasto. No caso da vegetação além das análises feitas no local, são coletadas amostras de caule, folhas, flores e frutos para identificação. Os biólogos também utilizam gravadores para o registro de anfíbios e aves. Além das tarefas no campo ainda é necessário se manter longe dos espinhos de tucum, das formigas vermelhas que vivem nos caules dos novateiros e conviver com centenas de picadas de carrapato.



Todas as coletas do projeto Erosão foram autorizadas pelo Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (Sisbio) do Ministério do Meio Ambiente (MMA). As amostras e espécimes coletados serão todos depositados nas coleções científicas da Unemat.



De acordo com o professor pesquisador, doutor em Ecologia e membro do projeto, Dionei José da Silva, as primeiras coletas já apontaram algumas direções, como a presença de animais antes não catalogados na região, como é o caso dos macacos aranha e parauacu e de outros, provavelmente introduzidos, como é o caso da tartaruga da Amazônia, que vem sendo encontrada com frequência no rio Paraguai.



Participam do projeto os professores da Unemat, doutores em Ecologia, Claumir Cesar Muniz, Dionei José da Silva e Manoel dos Santos Filho e a doutora em Biologia Vegetal, Maria Antonia Carniello, que juntos orientam alunos de mestrado e doutorado no desenvolvimento de suas dissertações ligadas a pesquisa. As professoras da Unemat, Áurea Regina Alves Ignácio, doutora em Ciências Biológicas e Joselane Souto Hall Silva, mestre em Ciências Ambientais também compõem a equipe. A ornitóloga, Olinda Maira Alves Nogueira, mestre em Ciências Ambientais, é pesquisadora convidada do projeto Erosão. Da UFMT participam os professores Paulo Cesar Vênere, doutor em Genética e Evolução, que atua como vice-coordenador do projeto Erosão e o doutor em Ecologia e Conservação, Gustavo Rodrigues Canale. Da University of East Anglia participa o professor brasileiro Carlos Augusto Peres, doutor em Ecologia Tropical e Conservação.  A bióloga e doutora em Ecologia, Christine Steiner São Bernardo, também participa do projeto.



Inter-relações: Todas as pesquisas do Projeto Erosão serão tratadas de forma inter-relacionadas. No conjunto das três primeiras expedições já foi possível observar forte relação entre a ocorrência de plantas frutíferas com a presença de primatas, tipo de estrutura de solo e ocorrência de espécies de répteis e alta pressão de pesca com a baixa abundância de peixes.



Uma “pitada” do que fazem esses biólogos pesquisadores: Os estudantes de mestrado e doutorado da Unemat e da UFMT que desenvolvem suas dissertações em conjunto com a atividade contam com a orientação dos experientes professores e pesquisadores do Projeto Erosão.



Se o assunto é mamífero, o professor da Unemat, Manoel dos Santos Filho, doutor em Ecologia, é expert. Sob sua orientação a mestranda em Ciências Ambientais na Unemat, Tathiane Martins da Costa e o doutorando em Biodiversidade e Biotecnologia pela rede Bionorte, Almério Câmara Gusmão, pesquisam de pequenos a grandes mamíferos. Tathiane vem avaliando a estrutura da comunidade de pequenos mamíferos: roedores e marsupiais como gambás. Almério trabalha com os de médio e grande porte como primatas, felinos, cervos, tatus, tamanduás entre outros. Ele estuda a quantidade de espécies presentes em 10 pontos da bacia do rio Paraguai. Desenvolve seus estudos percorrendo trilhas dentro da floresta contabilizando os mamíferos durante o percurso. Essa contagem se dá por observação direta, audição de vocalizações e por meio de vestígios como pegadas e carcaças de animais. Almério ainda utiliza armadilhas fotográficas. O intuito de seu trabalho é entender se há perdas na fauna ao longo da bacia. O doutorando destaca que um fator interessante “foi encontrar alta abundância de primatas em Barra do Bugres”.



Outro professor da Unemat, doutor em Ecologia, é o Dionei José da Silva. Com larga experiência em herpetologia ele orienta o mestrando em Ciências Ambientais, Vancleber Divino Silva Alves que vem analisando os anfíbios terrestres como sapos, pererecas e rãs. Além de estudar a estrutura de comunidade desses animais Vancleber pretende caracterizar algumas espécies por meio de estudos cromossômicos, para isso ele envia os intestinos para extração de material genético em laboratório para que seja detectada ou não variações genéticas entre as espécies que vivem no Rio Paraguai. Já o biólogo Odair Diogo da Silva, que trabalha com cobras e lagartos, juntou-se ao grupo para contribuir com as coletas que servirão posteriormente para sua dissertação de mestrado. Nessa empreitada ele vem avaliando a estrutura de comunidade de répteis squamata ao longo do rio Paraguai.



Orientanda do professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Paulo Cesar Vênere, doutor em Genética e Evolução, Jessica Mudrek, doutoranda em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, está fazendo levantamento populacional de crocodilianos na bacia do Rio Paraguai, em busca de padrões como proporção entre machos e fêmeas, faixas etárias, densidade por km linear. Durante os três primeiros meses de estudos Jessica encontrou e capturou duas espécies distintas: jacaré do pantanal e o jacaré-paguá. 



Mas quando se trata de peixes, o professor da Unemat, Claumir Cesar Muniz, doutor em Ecologia é referência. A mestranda em Ciências Ambientais, Ana Paula Dalbem Barbosa é orientada por ele. Juntos estão avaliando a estrutura de comunidade dos peixes no rio Paraguai. Trata-se de entender a composição, riqueza, abundância e equitabilidade dessa comunidade. Ana Paula explica que por meio desse estudo eles saberão quais são as espécies, a quantidade, o número de indivíduos de cada uma delas e a distribuição de indivíduos entre as espécies apontando se há ou não a presença de um ambiente preservado. Os locais escolhidos para passar o arrasto e as telas sobre os aguapés são as partes mais rasas do rio, por serem mais propícios a atividade. No módulo Barra do Bugres já foram coletados espécies como peixe cachorro, corimba, pequiras, lambaris, peixe Mato Grosso, cascudo, entre outros. Ana Paula destaca que a margem do rio nesta região é diferente da encontrada nos módulos anteriores. “Aqui temos pouco aguapé, o rio é mais corrente, o número de cevas é maior e o número de peixes coletados é menor”, comparou a mestranda.



Na botânica, a professora da Unemat, doutora em Biologia Vegetal, Maria Antonia Carniello, é sumidade no assunto. Em cada módulo da pesquisa ela trabalha um hectare de floresta dividido em cinco quadrantes de 200 m² cada. Nesse quadrante Antonia faz um mapeamento de quais são as espécies, a quantidade de indivíduos de cada uma delas, diâmetro de caule, se estão frutificadas, floridas, se produzem algum tipo de cola, se há árvores mortas, se tem marca de água proveniente de cheias, entre outros aspectos. Além do censo das árvores faz o de cupins para relacionar com a presença de mamíferos e de outros grupos.  Acompanham nessa tarefa o acadêmico de Ciências Biológicas na Unemat, Flávio de Campos Oliveira, que também é bolsista do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Herbário Virtual da Flora e dos Fungos/Herbário do Pantanal (INCT/HPAN) e o geógrafo Sebastião Lemes que contribui com as atividades que servirão posteriormente para sua dissertação de mestrado.



 



 


Por: Hemilia Maia